Quando eu pus o pé fora de casa, já levei um safanão do vento, que descabelava as palmeiras do prédio e as prostitutas do Bamboa.
Já comecei a correr prevendo o pior. A academia fica a 10 minutos de casa.
A primeira gota resvalou na minha testa. Primeira e única. Depois só ouvi o estalo da água batendo sobre a calçada, de uma só vez. Pulei pra baixo da primeira marquize que apareceu – era a do Supermercado Luzita.
No Supermercado Luzita, o pão francês é oco, e os corredores cheiram a Pinho Sol. O rejunte do piso está sempre molhado, e o açougueiro tem uma unha preta. O Supermercado Luzita não tem banheiro, e mesmo se tivesse você não ia querer usá-lo.
Um dos funcionários do Supermercado Luzita surgiu com uma chapa de aço de meio metro de altura, e encaixou-a na porta. Os transeuntes que se refugiaram da tempestade sob a marquize riram do exagero.
Dois minutos depois, a enxurrada ameaçava derrubar a comporta. As pessoas, em pânico, saíram debaixo da marquize e se amontaram dentro do Supermercado Luzita. Nesse momento eu vi o primeiro rato sendo levado pelas águas. A princípio ele tentou nadar contra a correnteza. Depois desistiu, deu meia volta, e desceu pela rua como um torpedo.
Em seguida os sacos de lixo começaram a descer. O primeiro que explodiu tinha verduras, principalmente pedaços de berinjela. Uma frota de centenas de sabugos de milho surgiu em formação. Um tomate batia insistentemente contra a comporta de aço.
As pessoas riam sem saber muito bem porque. Riram até que a água foi tingida de vermelho pelo lixo do açougue. Miolos, pedaços de intestino e gordura rodopiavam na enxurrada.
O senhor ao meu lado cutucou com a sua bengala um pedaço de carne que veio aportar na calçada. Ele disse, sobriamente:
- Sai, carniça.
Nada da carniça sair.
O funcionário do Supermercado Luzita anunciou que o estabelecimento fecharia em 10 minutos. As senhoras protestaram – como ele iria sair dali de qualquer forma? Custava ter um pouco de compaixão para com os clientes?
Quando chuva finalmente amainou, e eu pulei o riacho vermelho que havia se formado na rua. Voltei pra casa cantarolando. Ao menos eu havia descoberto que no supermercado Luzita, a Stella Artois custava apenas $2,50.